~ é de graça e faz bem
uma reflexão que veio muito na minha cabeça na última semana
Os dias estão cada vez mais corridos.
Já estamos no meio do ano e, se bobear, você não conseguiu encontrar até hoje aquela amiga que sempre fala “vamos combinar”. Na nossa rotina, muitas vezes combinamos sim trocentas coisas mas muitas delas, por mais urgentes que pareçam, não são.
Quero te contar 3 coisas que me fizeram pensar na semana passada: duas delas aconteceram comigo e uma, eu presenciei.
Semanas atrás, saindo de casa, entro no elevador e nele estava minha vizinha de cima (ela mora 2 andares acima do meu). Quando olho, ela tinha o pé imobilizado, então começamos a conversar e ela me contou que quebrou o pé, que não tinha acontecido nada demais mas o resultado foi uma fratura e agora ela precisava ficar 2 semanas com o gesso.
O elevador chegou no térreo, nos despedimos e eu nunca mais a vi - aqui no meu prédio, não sou amiga de ninguém (mas, enquanto escrevo este texto, reflito sobre). As pessoas mal se cumprimentam e dar abertura então para algo mais profundo… zero.
Passaram os dias e, semana passada, entro no elevador e lá está ela. Dei “bom dia”, olhei pro pé dela e falei: “Ahhh que bom que você já tirou o gesso e está melhor!”
Aí, meus amigos, a reação dela foi o que me pegou: ela olhou pra minha cara, com uma expressão bem surpresa e um sorriso largo no rosto. Começou a contar que sim, tinha tirado o gesso recente mas o pé às vezes doía porque quebrou justamente o ossinho no peito do pé - aquele tipo de osso que você não se dá muita conta que ele existe mas que quando ele quebra você percebe que sua sustentação depende dele. Continuamos conversando, o elevador chegou no térreo e nos despedimos mais uma vez. Não a vi mais desde então.
Mas aquela expressão de surpresa junto com o sorriso que veio logo em seguida, não saíram da minha cabeça. Era uma cara de surpresa do tipo: “Nossa! Você lembrou! Que legal!” - ela não verbalizou isso mas deu pra perceber que ficou feliz com o fato de que lembrei que ela tinha quebrado o pé e quis saber como ela estava.
No dia seguinte, voltando para a casa tarde da noite, cruzo com o meu porteiro - ele é um dos meus porteiros favoritos - e agora vou abrir um parêntese grandão:
[ Uma das coisas que mais amo de morar no prédio que eu moro é perceber o cuidado dos porteiros comigo. Sou solteira, moro sozinha e eles sabem disso. Uma vez, muito tempo atrás, me lembro de ter acabado de mudar pra cá e tinha um funcionário da Vivo instalando a internet no apartamento. Só que estava demorando mais do que o normal para finalizar a instalação e de repente, escuto o interfone tocar: “Ju, é o Antônio. Tá tudo bem aí?” “Está sim seu Antônio, obrigada!” “É porque eu achei que estava demorando muito pro cara descer, quis confirmar.” Eu nunca esqueci da atitude dele. Outra vez, um outro porteiro me mostrou uma listinha escrita à mão em um pedaço pequeno de papel: “Essa listinha é das pessoas que saíram de casa e ainda não voltaram.” E foi quando vi alguns poucos nomes já riscados e os outros, ainda sem riscar. Abri um sorriso e fui pra casa. Como eles são atenciosos e cuidadosos no dia a dia com a gente, sabe? Tem momentos que chega a emocionar. ]
Volto para a noite que cheguei tarde em casa e então, Silas, um dos meus favoritos, está na portaria. “Ei Silas” “Oi Ju” - ele falou BEM rouco. “Ixi, o que aconteceu? Tá gripado?” “Não…mas a garganta tá bem ruim.”
Entrei para minha casa e me lembro de pensar: a portaria do meu prédio é MUITO gelada. Deve diminuir uns 3 graus ou mais da temperatura real, sabe? E aquele dia era uma das noites mais frias de SP dos últimos tempos. Lembrei que comprei umas sopas pré prontas bem gostosinhas, para facilitar o meu dia a dia. Então liguei pra portaria: “Silas, quer um cházinho ou uma sopa? Está tão frio aí, queria te mandar alguma coisa…” “Oi Ju! Eu aceito sim!” Então, fiz a sopa, coloquei em um potinho e mandei pelo elevador. Depois, recebi várias mensagens dele pelo whatsapp agradecendo e falando “Jesus te abençoe”.
No mesmo dia, só que mais cedo, estava em um show.
Pulei, cantei horrores, me acabei.
Voltei renovada.
Em um determinado momento do show vi uma menina do meu lado sozinha, curtindo e cantando todas. Quando o Herbert (Viana) começou a cantar uma música, ela pegou o celular e fez facetime com uma outra mulher: “É a sua música favorita” e então virou o celular para que ela conseguisse escutar. Acabou a música, acabou o call, ela continuou lá sozinha curtindo o show.
Já eu, mais uma vez fiquei pensando.
A real é que não te contei essas histórias para você dar parabéns para ninguém. Contei porque foram coisas que aconteceram e me fizeram pensar muito nesses últimas dias.
Todas elas são coisas muito, muito simples. Que dão zero trabalho fazer e custam zero reais. Mas todas elas, foram coisas que fizeram o dia de outra pessoa ser um pouquinho melhor - e na aba, o meu também (e o da moça do show também, tenho certeza).
Viver no mundo atual não é fácil.
Muitas coisas me incomodam nesse mundo mas uma das que mais me incomoda é a desumanização das pessoas. Passamos ao lado e é como se ninguém estivesse lá - seja na rua ou no elevador. Raramente nos preocupamos em saber os nomes das pessoas com as quais cruzamos - por mais que elas nos atendam durante só 5 minutos.
É como se elas não tivessem uma identidade de fato, como se fossem um NPC:
no videogame (e olha que sou zero a pessoa do videogame mas essa informação eu sei kkk), um NPC é um Non-Playable Character.
É qualquer personagem dentro do jogo que não é controlado por uma pessoa real mas sim pelo computador. Teoricamente, eles dão vida pro o jogo, tipo aqueles personagens que andam pelas ruas, passam por você enquanto vai cumprir sua missão… mas nada muito além disso. Você não sabe a história deles, eles não tem nome e, se você estiver bem concentrado no jogo, se bobear nem vai prestar atenção na existência deles.
Às vezes, parece que o mundo atual se resume a isso: existe o personagem principal (eu na minha vida, você na sua), os secundários (pessoas que são do nosso círculo pessoal) e então, os NPCs.
Mas assim: NÃO SÃO NPCs!!!
São pessoas, que importam tanto quanto qualquer outra.
Precisamos urgentemente parar de desumanizar quem está ao nosso lado. Parar de tratá-las como se não existissem ou como se sua existência não importasse.
Importa sim.
Quando escrevi lá em cima que “meus vizinhos não me dão abertura para ser amiga deles”, enquanto escrevia pensei: “Não dão MESMO? Eu tentei?” E não, nunca tentei. O máximo que aconteceu foram conversas de elevador que duraram todo o tempo de alguém chegar no andar que precisava. E só. Tentar mesmo, ativamente, nunca nem sequer tive esse interesse. Então, por que colocar na conta deles uma iniciativa que eu mesma nunca tive?
Os acontecimentos dessa última semana me fizeram refletir muito sobre como algo “idiota” (no sentido de simples) nos conecta de uma forma muito bonita com o outro. Como conseguimos de fato, com pequenas atitudes, ajudar com que o dia do outro seja menos difícil e mais feliz.
Está aí, o tempo todo.
É simples,
rápido,
não custa nada.
~ Mas faz muita diferença.



Adorei suas reflexões, Ju. Já morei em SP e agora moro em Brasília. Acho que há também uma questão sócio-cultural e do ritmo das cidades. Vejo muito mais proximidade entre vizinhos em Minas, da onde a gente vem. SP sempre me pareceu muito frio, as pessoas mal se cumprimentam. Aqui em Brasília fica no meio do muro, mas como boa mineira, falo com todo, inclusive na rua. Sobre os seus porteiros, achei tão legal e vejo esse cuidado nos meus aqui tb. E parece uma coisa tão pequenininha, mas é tão grandão para gente, né?