~ bitter sweet symphony
já dizia Richard Ashcroft: assim é a vida, uma sinfonia agridoce.
[ Eu acho que você vai se identificar com o texto de hoje, já fica aqui meus dois centavos de aposta. ]
Pra você que não sabe das minhas origens, deixa eu te contar: embora more em São Paulo a mais de 7 anos (como passa rápido!) não sou daqui. Sou mineira, nasci e cresci em Juiz de Fora.
Sim, Juiz de Fora.
Uma das cidades que mais esteve nos noticiários nas últimas semanas por uma razão bem triste: as enchentes e os desabamentos por conta das fortes chuvas na região.
Na semana em que tudo aconteceu, mal conseguia me concentrar. Que não moram mais lá: só eu e meu irmão. Todo o resto da família continua. Foi uma das semanas mais improdutivas por aqui - várias coisas por fazer mas a cabeça toda em Juiz de Fora. Com as famílias, os amigos e uma sensação enorme de impotência.
Mas já tinha uma viagem marcada para lá naquela mesma semana: iria na quinta à noite de ônibus e voltaria no domingo de avião. O motivo? O casamento de uma das minhas melhores amigas no dia 28, coincidentemente também conhecido como “o dia do aniversário do meu irmão”. Celebração dupla.
Tudo aconteceu na madrugada de segunda para terça. E então, as coisas mudaram.
Era a semana do casamento, ela ficou quase incomunicável porque todo o seu foco a partir de então era em ajudar quem pudesse com idas ao mercado, doações de roupas, organização dos abrigos… Na quarta, mandei mensagem para ela: “Amiga, se vocês estiverem pensando em adiar me avisa até amanhã, por favor.” Quando então ela me respondeu: “Ju, está tudo pronto, minha irmã e minha sobrinha já estão aqui, vamos manter mesmo”.
E então, dentro da minha cabeça começaram vários pensamentos e preocupações: “Como vai ser o clima do casamento com a cidade enfrentando tanta tristeza? Será que eles vão conseguir aproveitar o dia como deveriam, sem se culpar por celebrarem?”
O dia do casamento de alguém não é para ser lembrado com tristeza, né? É um dos dias mais incríveis que aquele casal já viveu, um dos mais felizes.
Como aconteceria tudo então? Teria clima para só ser feliz?
Fui pra lá muito preocupada e me lembro de conversar com ela falando: “Amiga, agora que vai acontecer mesmo é, pelo menos no dia, se entregar, se permitir celebrar e ser feliz.”
O casamento aconteceu - foi lindo, emocionante, nunca a vi tão feliz e nunca me emocionei tanto também. Ver sua felicidade e gratidão por ter todas as pessoas que mais ama ao seu lado naquele momento emocionou demais.
Em Outubro de 2024, fui para Nova Iorque fotografar um casamento. Fotografaria sozinha então foi uma viagem praticamente sozinha (embora tenha encontrado com amigas por lá).
O hotel que eu ficava era localizado no Chelsea e, como fazia muita coisa à pé, sempre passava na frente do Madison Square Garden. Um belo dia já noite, depois de passar em algumas lojas e cheia de sacolas, viro a esquina que dava para ele e vejo um movimento enorme. Ambulantes vendendo camisetas e quando olho: Stevie Wonder. Ao ver todo o movimento de pessoas entrando me toquei: um show dele estava para acontecer naquele dia.
Fiquei meio apavorada, quis entrar lá pra ter certeza e quando entrei, vi: no teto, uma projeção do nome da sua turnê “Can we fix our nation's broken heart tour”. Fui no Google loucamente procurar por um ingresso e… CONSEGUI!
Pensei: “Qual a CHANCE desse cara fazer essa tour no Brasil?” e “SE ele for, qual a chance de eu conseguir um ingresso na quinta fileira?”
Comprei e entrei, assim mesmo, cheia de sacolas e sozinha.
O show tinha começado quando de repente, olho meu celular e nisso uma mensagem do meu namorado: “Minha avó teve um avc e está na uti.”
Meu primeiro impulso foi sair do show pra ligar para ele mas, logo na sequência, me lembrei que nesse caso não poderia fazer muita coisa e o máximo que estava ao meu alcance naquele momento era ouvi-lo e apoiá-lo - coisa que podia fazer depois que o show acabasse, da mesma forma.
Então fiquei.
E te falo sem nenhuma hesitação que vivi uma das noites mais incríveis da minha vida. Por várias vezes olhava em volta meio abobada, sem acreditar em tudo o que estava acontecendo. Me emocionei, chorei, agradeci mil vezes por ter o privilégio e a oportunidade de viver aquele momento. Foi de fato, inesquecível.
Voltei pro hotel, liguei para ele, consegui trocar minha passagem de volta e voltei antes. Algumas semanas depois, a avó faleceu.
Nos dois casos (e poderia aqui também citar vários outros), lidar com a felicidade do momento foi bem desafiador.
“Como assim estou aqui tão feliz??? Isso não está certo.”
Era o que passava pela minha cabeça várias e várias vezes. E em algumas delas, vinha o sentimento de culpa: por sentir uma coisa boa, como se não tivesse nenhum direito de me sentir bem/alegre/feliz por conta de tudo o que acontecia à minha volta (seja no mundo ou com pessoas próximas).
Me lembro tanto da época das enchentes no RS quanto da guerra na Palestina de comentar na terapia: “Não sinto vontade de compartilhar nada, parece que qualquer coisa que eu fale ou compartilhe vá ser errada mediante a seriedade do que está acontecendo.” Não à toa, fiquei um bom tempo sem falar um a em lugar nenhum.
Este assunto voltou com força na semana passada, quando minha terapeuta me perguntou como foi a viagem a Juiz de Fora e não consegui não falar sobre todo esse paradoxo.
Andar por Juiz de Fora, ver com meus próprios olhos a destruição (deslizamentos por todos os lados, estradas interditadas, rachaduras nas casas e nos muros) e, ao mesmo tempo, presenciar tanta felicidade e emoção no casamento da minha amiga causaram sentimentos contraditórios mas que precisaram conviver juntos.
Na sessão de terapia, lembrei de uma música que desde que conheço (muitos anos atrás) sempre me tocou muito - Samba de amor e ódio, da Roberta Sá:
Ela fala justamente sobre como viver é esse paradoxo. Como temos que, o tempo todo, conviver com o bem e mal, felicidade e tristeza, paz e guerra, amor e ódio, dor e prazer.
“Erra
Quem sonha com a paz mas sem a guerra
O céu existe pois existe a terra
Assim também nessa vida real
Não há o bem sem o malNem há
Amor sem que uma hora o ódio venha
Bendito ódio, ódio que mantém
A intensidade do amor, seu ardor
A densidade do amor, seu vigor
E a outra face do amor vem à flor
Na flor que nasce do amor”
Meu maior desafio - talvez seja o seu também - é me permitir esse sentir apesar de. Apesar de toda a dor, guerra, catástrofe, violência, luto…ainda assim, me permitir ser feliz, amar, sentir prazer, celebrar e viver momentos grandiosos. Consciente de todos os meus privilégios sim mas ao mesmo tempo, sem culpa.
Pelo que observamos no mundo ao nosso redor a tendência é cada vez mais recebermos notícias desafiadoras e difíceis. Que tenhamos a serenidade de sim, compadecer e ser sensíveis ao que nos acontece mas nunca, nunca, nunca, deixarmos de ver a beleza do viver, de celebrar coisas incríveis que nos acontecem e viver intensamente - sem culpa.
“Bendito ódio, ódio que mantém
A intensidade do amor, seu ardor
A densidade do amor, seu vigor
E a outra face do amor vem à flor
Na flor que nasce do amor”




tem sido bem desafiador falar de amor num momento tão cheio de guerra no mundo, falar de “supercialidade comemorativas” com tanta gente sofrendo, até chegar nesse ponto aqui de escrever como tem sido ruim sentir isso, ora que dor mais pequeninha diante de tantas outras dores.
enfim, obrigada por lembrar de não parar.