~ a decepção
um choro que me disse muito.
Voltando de viagem com uns amigos, na estrada, muitos assuntos foram falados.
Em um determinado momento, uma amiga perguntou: “E os seus pais, amiga?”
Foi quando comecei a contextualizá-los de tudo, contar detalhes e até mesmo contar toda a história de novo para outra amiga que não sabia.
Normalmente é uma história que, apesar de me deixar triste, eu conto sem chorar. Já faz tempo, “estou acostumada”, já foi assunto de muita terapia então hoje, conto tudo de uma forma bem tranquila.
Em um determinado momento, falando sobre pai e mãe, minha proximidade com meu pai, a proximidade do meu irmão com minha mãe, o ser “a irmã mais velha” e o peso que isso acarreta, falei a seguinte frase: “Eu sei que decepcionei meus pais.”
E aí, foi bem nessa hora, que comecei a chorar.
Antes disso, contei várias outras coisas que já podia ter me acabado de chorar. Mas foi exatamente no momento que verbalizei saber que decepcionei meus pais, que a garganta fechou, a voz ficou trêmula e as lágrimas vieram.
Não chorei porque houve um rompimento.
Não chorei porque meus limites não foram aceitos.
Não chorei por passar experiências que não desejo para ninguém.
Chorei porque não queria decepcionar nem meu pai, nem minha mãe.
Chorei porque sei que as minhas escolhas resultaram em uma decepção muito grande e sustentá-las, os feriu.
Eu queria que meus pais falassem de mim com muito orgulho.
O mesmo orgulho que o meu irmão fala.
O mesmo orgulho que minhas tias, irmãs da minha mãe, falam.
O mesmo orgulho que as minhas amigas falam.
Mas para eles, eu - e as escolhas que fiz ao longo da vida - são mais motivo de tristeza e decepção, do que orgulho e felicidade.
Na cabeça deles, não poderia ter feito escolhas piores.
Eu queria ser um orgulho para os meus pais.
Não sou. E essa é uma das minhas maiores dores.
A Juliana que foi criada para ser a menina exemplo, (não só para o seu irmão mas para toda uma comunidade), aquela que sempre fazia tudo certo e bem de acordo com os padrões que foram ensinados, que muitas vezes abaixava a cabeça e só fazia - mesmo quando não concordava muito… essa Juliana já não existe faz muito tempo.
Ela precisou se posicionar, se impor.
É necessária uma força muito grande para ir contra o que se espera.
Aprendi isso na marra mas mais do que qualquer outra coisa, aprendi que a pior decepção que existe é viver uma vida toda atendendo somente às expectativas que foram criadas por outras pessoas.
Viver uma vida moldada nas expectativas dos outros sobre você pode significar tudo, menos viver a sua vida.
É horrível se sentir uma decepção na vida de quem se ama.
Mas mais horrível ainda é viver uma vida na qual você só existe, tal qual uma marionete nas mãos de quem te controla de acordo com desejos e planos que nem os seus são.
“Será que o seu pai um dia vai ter um lapso de arrependimento?”, minha amiga perguntou.
”Eu acho que não”, respondi.
No fim das contas, acho que sempre serei sua maior decepção.
No fim das contas, vou sempre ter que aprender a lidar com a dor e a culpa de não ser exatamente como eles queriam que eu fosse - e nem de fazer as escolhas que eles queriam que eu fizesse.
No fim das contas, me contento em só ser…
eu.
E isso é grande.



que texto profundo, lindo... obrigada por compartilhar com a gente! te abraço carinhosamente daqui, Ju! <3
Tb decepcionei minha mãe e não me arrependo. Ela já me acha caso perdido e aceitou ou finge q sim.